A Academia Brasileira de Letras recebeu, em seu Chá dos Acadêmicos, três usuários do microblog Twitter que tiveram seus microcontos premiados. Os vencedores, um do Rio e dois do interior paulista, foram contemplados com dicionários entregues por "imortais" como Nélida Piñon, Arnaldo Niskier e Cícero Sandroni.
A formalidade, porém, restringiu-se à premiação. Os microcontos vencedores, além de primarem pela concisão e informalidade típicas do microblog, marcam a abertura da ABL a uma linguagem "jovem", cuja vitrine seriam os textos veiculados por internautas em redes sociais. Participaram da competição cerca de 2.290 microcontos sobre os mais diferentes temas. Praticamente tudo era permitido, desde que não se ultrapassassem os 140 caracteres impostos pelo formato da ferramenta.
Eis os três microcontos vencedores do concurso promovido pela ABL:
1º lugar
" Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida."
Bibiana Silveira Da Pieve, Rio de Janeiro
2º lugar
" Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu."
Carla Ceres de Oliveira Capeleti, Piracicaba - S.Paulo
3º lugar
" Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho da parede da cozinha. Acertou na mosca."
Eryck G. S. de Magalhães, Guaratinguetá - S. Paulo
A iniciativa da Academia Brasileira de Letras de se abrir às novas tecnologias em favor da literatura brasileira mostra-se bastante positiva, já que procura aproximar a tradição acadêmica da sociedade. Acrescente-se a isso, a questão dos gêneros discursivos, que devem atender às diferentes esferas de circulação e, portanto, adaptar-se às situações contextuais e midiáticas, como nesse caso, a formatos textuais, até então, inimagináveis pelos "imortais".
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Aurélio no celular
Com o avanço da tecnologia, não há mais espaço para argumentos contra os dicionários compactos, muitas vezes preteridos por serem pouco abrangentes em relação às edições integrais. O lançamento da versão eletrônica do dicionário Aurélio para celulares rompe essa lógica ao dar conta dos 435 mil verbetes da edição completa, até então restritos a um calhamaço de páginas, que a partir de agora podem ser acessados em qualquer lugar do mundo sem a necessidade de se conectar à internet para a consulta.
Os 435 mil verbetes compreendem locuções, definições, classes gramaticais, conjugação completa e etimologia. O aplicativo, disponível na loja virtual da Apple, vem sendo bem avaliado pelos usuários, que têm demonstrado preferência pelo programa em vez das duas mil páginas da edição impressa.
Os 435 mil verbetes compreendem locuções, definições, classes gramaticais, conjugação completa e etimologia. O aplicativo, disponível na loja virtual da Apple, vem sendo bem avaliado pelos usuários, que têm demonstrado preferência pelo programa em vez das duas mil páginas da edição impressa.
sábado, 28 de agosto de 2010
Ficha limpa do idioma
Os tempos verbais podem transformar-se em armas perigosas. Explicando: com diferenças sutis entre si, os tempos verbais podem ser usados para alterar o sentido, muitas vezes, intencionalmente. É o caso que ocorreu, recentemente, no projeto de iniciativa popular que impedia a candidatura de políticos condenados pela Justiça, o Ficha Limpa, aprovado pelo Senado em 19 de maio e sancionado pelo presidente Lula em 7 de junho. Tudo ia bem quando, depois de aprovada a lei, uma emenda de última hora alterou um tempo verbal do projeto original.
O projeto original dizia que seriam inelegíveis os políticos que "tenham sido condenados" e os que "foram condenados" pela Justiça, isto é, qualquer pessoa condenada pela Justiça seria inelegível. No entanto, a Câmara dos Deputados, não satisfeita, atenuou o projeto, de forma que a interpretação passou a ser a de que "só os condenados por colegiado de juízes seriam inelegíveis".
O projeto original dizia que seriam inelegíveis os políticos que "tenham sido condenados" e os que "foram condenados" pela Justiça, isto é, qualquer pessoa condenada pela Justiça seria inelegível. No entanto, a Câmara dos Deputados, não satisfeita, atenuou o projeto, de forma que a interpretação passou a ser a de que "só os condenados por colegiado de juízes seriam inelegíveis".
Mesmo com essa mudança, segundo alguns políticos, ainda seria necessário alterar o texto para evitar equívocos de sentido. Dessa forma, para "uniformizar o texto", disse o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) criou emenda que alterou o tempo verbal para "os que forem condenados".
O que terá pretendido o inefável senador ao mudar o tempo "tenham sido" (pretérito perfeito do subjuntivo) por "forem" (futuro do subjuntivo)?
O que terá pretendido o inefável senador ao mudar o tempo "tenham sido" (pretérito perfeito do subjuntivo) por "forem" (futuro do subjuntivo)?
Sabemos que o subjuntivo de "que forem condenados" aponta hipótese de que algo venha ocorrer. Na prática, deixa políticos já condenados livres para se candidatarem.
Ao responder à Folha de S.Paulo se havia feito a emenda de redação para beneficiar o deputado Paulo Maluf, também do PP, condenado por colegiado de juízes, Dornelles garantiu que não. Explicou que só quis unificar os tempos verbais porque havia divergências no texto. Então, é lícito perguntar por que não os unificou no passado " foram" no lugar de " tenham sido"?
Não é o primeiro caso de mudança de português que, cosmética na superfície, transforma um texto legal; mas é o primeiro relevo eleitoral dado a um tempo verbal. Nesse caso específico, percebe-se que a troca de tempos verbais delineou implicações reveladoras do caráter do político brasileiro.
Não é o primeiro caso de mudança de português que, cosmética na superfície, transforma um texto legal; mas é o primeiro relevo eleitoral dado a um tempo verbal. Nesse caso específico, percebe-se que a troca de tempos verbais delineou implicações reveladoras do caráter do político brasileiro.
Muito oportuno o que disse Josué Machado relativamente a esse carnaval político: " Para que clarear o que vai tão bem na penumbra? "
Esse episódio alerta-nos para as sutilezas dos sentidos construídos pelos tempos verbais. Principalmente nesse ano eleitoral, todo cuidado é pouco. Numa disputa tão acirrada como a que se anuncia, a vigilância na linguagem pode revelar-se mais que justificada.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
O tempo na narrativa
Sabemos que uma das grandes marcas do texto narrativo é o eixo da temporalidade. Dito de outra forma, toda narrativa é conduzida por uma linha temporal que pode ser sincrônica ou diacrônica; resultando, sempre, numa sucessividade de ação e reação.
Recurso consagrado na literatura, a narração no passado divide a história entre o tempo dos fatos e o tempo em que eles são contados.
Se prestarmos atenção, verificaremos que a maioria das narrativas acontece no passado. Uma voz, que pode ser de um narrador ou de um personagem, conta-nos algo que já aconteceu, não importa se há muitos anos ou há alguns segundos. Narrar no passado é recurso tão generalizado que se tornou quase imperceptível. Instintivamente já esperamos que um conto ou romance seja narrado dessa forma. Está na raiz de toda literatura como " contação de histórias " a reconstituição verbal de um fato acontecido, seja real ou imaginário. Toda narração é a narração presente de um fato passado.
Ou melhor, nem toda. É difícil rastrear quem foram os primeiros autores a contar no presente uma história fictícia. Esta forma de narrar está entrelaçada à literatura modernista que rompeu o molde tradicional de narrar nas últimas décadas do século 19. Em meados do século 20, já era um procedimento absorvido tanto pela alta literatura quanto pela literatura de massas da época.
Vale lembrar que há também a narrativa que busca o imediatismo do cinema. Assim, temos a sensação de ver a história acontecer aqui e agora, diante dos nossos olhos. Para muitos autores do século 20, era um modo instintivamente moderno de narrar, pois parecia prometer uma fusão entre passado e presente, autor e leitor, realidade e história.
Lembremos que Machado de Assis manipulava com maestria as duas formas de narrar (passado e presente), valendo-se do que podemos chamar de ' autoridade de autor', isto é, o poder que tem o autor de fazer o leitor seguir-lhe os passos, aceitando tudo, acreditando em tudo, confiando no jogo imaginativo que o autor lhe propõe. A grande vantagem de Machado era a de que escrevia em folhetins de jornal e se valia da cumplicidade implícita acarretada por esse meio de dialogar com o leitor. É o caso que se verifica em "Habilidoso" (1885), em que emprega o senso de imediatismo, de presença, criando uma narrativa no presente do indicativo.
Outro exemplo de narrativa que recorre ao mesmo expediente é "Noivado"( 1966) de Osman Lins.
Vale a pena revisitar esses textos, ou então conhecê-los, pois eles revelam o grau de excelência em lidar com o tempo na narrativa.
Recurso consagrado na literatura, a narração no passado divide a história entre o tempo dos fatos e o tempo em que eles são contados.
Se prestarmos atenção, verificaremos que a maioria das narrativas acontece no passado. Uma voz, que pode ser de um narrador ou de um personagem, conta-nos algo que já aconteceu, não importa se há muitos anos ou há alguns segundos. Narrar no passado é recurso tão generalizado que se tornou quase imperceptível. Instintivamente já esperamos que um conto ou romance seja narrado dessa forma. Está na raiz de toda literatura como " contação de histórias " a reconstituição verbal de um fato acontecido, seja real ou imaginário. Toda narração é a narração presente de um fato passado.
Ou melhor, nem toda. É difícil rastrear quem foram os primeiros autores a contar no presente uma história fictícia. Esta forma de narrar está entrelaçada à literatura modernista que rompeu o molde tradicional de narrar nas últimas décadas do século 19. Em meados do século 20, já era um procedimento absorvido tanto pela alta literatura quanto pela literatura de massas da época.
Vale lembrar que há também a narrativa que busca o imediatismo do cinema. Assim, temos a sensação de ver a história acontecer aqui e agora, diante dos nossos olhos. Para muitos autores do século 20, era um modo instintivamente moderno de narrar, pois parecia prometer uma fusão entre passado e presente, autor e leitor, realidade e história.
Lembremos que Machado de Assis manipulava com maestria as duas formas de narrar (passado e presente), valendo-se do que podemos chamar de ' autoridade de autor', isto é, o poder que tem o autor de fazer o leitor seguir-lhe os passos, aceitando tudo, acreditando em tudo, confiando no jogo imaginativo que o autor lhe propõe. A grande vantagem de Machado era a de que escrevia em folhetins de jornal e se valia da cumplicidade implícita acarretada por esse meio de dialogar com o leitor. É o caso que se verifica em "Habilidoso" (1885), em que emprega o senso de imediatismo, de presença, criando uma narrativa no presente do indicativo.
Outro exemplo de narrativa que recorre ao mesmo expediente é "Noivado"( 1966) de Osman Lins.
Vale a pena revisitar esses textos, ou então conhecê-los, pois eles revelam o grau de excelência em lidar com o tempo na narrativa.
sábado, 19 de junho de 2010
Redação da UNICAMP
Estive hoje na UNICAMP para participar da Oficina de Redação UNICAMP 2010, sob a responsabilidade da COMVEST ( Comissão Permanente para os Vestibulares da UNICAMP).
Já havia combinado com meus alunos que, assim que obtivesse as informações, estaria repassando-as. Optei por deixar, na área restrita do site da escola, uma síntese do conteúdo desse encontro. Conversaremos com mais profundidade sobre o assunto em sala de aula, esclarecendo possíveis dúvidas.
Já havia combinado com meus alunos que, assim que obtivesse as informações, estaria repassando-as. Optei por deixar, na área restrita do site da escola, uma síntese do conteúdo desse encontro. Conversaremos com mais profundidade sobre o assunto em sala de aula, esclarecendo possíveis dúvidas.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago deixa saudade
Estou triste. Meus alunos e amigos sabem que estou triste. Faleceu hoje, José Saramago, o primeiro escritor de Língua Portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Ateu, cético e pessimista, Saramago sempre teve atuação política marcante e levantava a voz contra as injustiças, a religião constituída e os grandes poderes econômicos, que ele via como grandes doenças de nosso tempo.
Estou triste. Profundamente triste. No entanto, orgulhosa por ter perseguido por dez anos a obra de um escritor que, de uma singela aldeia de Portugal (Azinhaga), com avós analfabetos e pais humildes, mostrou ao mundo a que veio.
Em A Caverna, há uma passagem que pode encerrar essa postagem:
"(...) a não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar."
Ateu, cético e pessimista, Saramago sempre teve atuação política marcante e levantava a voz contra as injustiças, a religião constituída e os grandes poderes econômicos, que ele via como grandes doenças de nosso tempo.
Estou triste. Profundamente triste. No entanto, orgulhosa por ter perseguido por dez anos a obra de um escritor que, de uma singela aldeia de Portugal (Azinhaga), com avós analfabetos e pais humildes, mostrou ao mundo a que veio.
Em A Caverna, há uma passagem que pode encerrar essa postagem:
"(...) a não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar."
terça-feira, 15 de junho de 2010
A mentira tem pernas curtas
Será que a origem da expressão " A mentira tem pernas curtas" está ligada ao pintor Toulouse-Lautrec?
Márcio Cotrim diz que a expressão em questão leva-nos à Paris do final do século 19, época em que viveu Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa. Tinha estatura muito baixa por causa de um defeito físico que lhe atrofiara as pernas. Isso, porém, não o impediu de notabilizar-se como um dos grandes nomes da pintura universal.
Criou um estilo conhecido como art nouveau, a partir de ilustrações de cartazes retratando a esfuziante dança do can can no célebre cabaré Moulin Rouge, de onde era assíduo frequentador. Lá consumia o absinto, bebida então em moda por um suposto efeito alucinógeno que fascinava outros artistas daquela geração como Rimbaud, Oscar Wilde, Baudelaire e Vincent van Gogh.
Faleceu precocemente, aos 36 anos, vitimado por sífilis e alcoolismo. Ícone da boemia parisiense, não entrou para a história apenas como grande pintor, mas também por um hábito surpreendente e pouco nobre: o de contador de lorotas, a ponto de seu talento artístico ser comparado às que ele contava em suas rodas sociais.
Tudo isso fez surgir a expressão " a mentira tem pernas curtas."
Chega-se à conclusão de que brilhantes vocações , às vezes, convivem com censuráveis costumes morais. No caso de Lautrec, diante da genialidade do artista, são esquisitices piedosamente aceitáveis. Pecadinhos veniais...
Márcio Cotrim diz que a expressão em questão leva-nos à Paris do final do século 19, época em que viveu Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa. Tinha estatura muito baixa por causa de um defeito físico que lhe atrofiara as pernas. Isso, porém, não o impediu de notabilizar-se como um dos grandes nomes da pintura universal.
Criou um estilo conhecido como art nouveau, a partir de ilustrações de cartazes retratando a esfuziante dança do can can no célebre cabaré Moulin Rouge, de onde era assíduo frequentador. Lá consumia o absinto, bebida então em moda por um suposto efeito alucinógeno que fascinava outros artistas daquela geração como Rimbaud, Oscar Wilde, Baudelaire e Vincent van Gogh.
Faleceu precocemente, aos 36 anos, vitimado por sífilis e alcoolismo. Ícone da boemia parisiense, não entrou para a história apenas como grande pintor, mas também por um hábito surpreendente e pouco nobre: o de contador de lorotas, a ponto de seu talento artístico ser comparado às que ele contava em suas rodas sociais.
Tudo isso fez surgir a expressão " a mentira tem pernas curtas."
Chega-se à conclusão de que brilhantes vocações , às vezes, convivem com censuráveis costumes morais. No caso de Lautrec, diante da genialidade do artista, são esquisitices piedosamente aceitáveis. Pecadinhos veniais...
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Quem sou eu
- Mirian
- Mirian Rodrigues Braga é mestre e doutora em Língua Portuguesa pela PUC/SP. Especializou-se em analisar as obras de José Saramago. Em 1999, publicou A Concepção de Língua de Saramago: o confronto entre o dito e o escrito e também participou da coletânea José Saramago - uma homenagem, por ocasião da premiação do Nobel ao referido autor. Em 2001, publicou artigo na Revista SymposiuM da Universidade Católica de Pernambuco. Atuou como professora-assistente no Curso de Pós-Graduação lato sensu da PUC/SP. É professora de Língua Portuguesa e Redação no Ensino Médio e Curso Pré-Vestibular do Colégio Argumento.