É preciso tomar cuidado ao conjugar certos verbos que são verdadeiras armadilhas para quem os usa.
Talvez a mais complexa das dez classes gramaticais da língua, o verbo exprime e situa temporalmente ações, estados ou mudanças de estado dos seres e fenômenos da natureza. Tempo, modo, pessoa, número são os instrumentos gramaticais do verbo.
Já que o estudo do verbo abrange um universo muito amplo, o que mais interessa aqui é deixar exemplos de formas capazes de induzir ao erro na flexão e mostrar que os verbos irregulares são os que mais provocam dificuldades na conjugação.
Josué Machado cita, em artigo na revista Língua Portuguesa, um exemplo que serve para ilustrar o que foi dito.
Ao anunciar debate televisivo, um jornal publicou:
"BONNER MEDIA O PROGRAMA"
Ops! Aqui há uma impropriedade no uso do verbo. O redator esqueceu-se de que o verbo mediar é um dos irregulares entre os regulares terminados em "iar". É possível que o "deslize" tenha ocorrido porque há uma tendência brasileira à regularização dos verbos e à simplificação geral da língua, o que explica, em parte, o "media" do texto.
Lembremos que há 4 verbos irregulares com final "iar": MEDIAR, ANSIAR, INCENDIAR e ODIAR. Os 4 se conjugam como odiar: odeio, medeio,anseio, incendeio. Ganham um "e" nas formas rizotônicas (tônica na raiz).
Para lembrar esses verbos, lance mão de um recurso mnemônico: eles formam as iniciais do mês de maio:
- Mediar
- Ansiar
- Incendiar
- Odiar.
INTERMEDIAR e REMEDIAR são derivados de MEDIAR e como ele se conjugam: intermedeio e remedeio.
São regulares os outros verbos em iar: adiar, afiar, agenciar, arriar, comerciar, desfiar, maquiar, premiar, sentenciar etc. Dessa forma: adio, afio, agencio, arrio, comercio, desfio, maquio, premio, sentencio.
Depois dessa repassada teórica, é hora de corrigir a manchete do jornal:
"BONNER MEDEIA O PROGRAMA"
sábado, 2 de abril de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Embora X Também
Já discutimos que coesão é a conexão, a interligação, a concatenação entre as partes de um texto. Texto coeso é aquele em que os segmentos estão articulados uns com os outros. O fundamental é que o resultado seja um texto compreensível e sem vácuos, a fim de que o leitor não se sinta desamparado. É preciso que o texto flua tanto possível em harmonia para que o leitor ( ou ouvinte) não precise se esforçar para imaginar o que o autor gostaria de ter dito.
Quanto à coerência, é a unidade do texto. Othon M. Garcia diz que "a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo-se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante do parágrafo."
Em certos contextos, coerência pode ser sinônimo de coesão. Para ilustrar o que foi colocado, observemos um recorte de um texto jornalístico relativamente recente, em que um repórter registrou, num parágrafo, sua percepção sobre um confronto entre candidatos na última campanha eleitoral:
" Embora vestidos iguais para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles ( os candidatos) também apresentaram diferenças em relação a políticas de ação afirmativa."
Esse é o se pode chamar de período desconexo. A primeira oração de " Embora" até "vermelha", constitui uma concessão que não se coaduna com a afirmação contida em seguida de que "eles também apresentaram diferenças..." Ocorre que também é um reforço do verbo ligado a "diferenças"; e " embora" é conjunção adverbial concessiva que expressa ideia contrária.
Enfim, o redator escreveu algo com o mesmo sentido do seguinte enunciado:
Embora o maxixe seja ótimo alimento, também o jacaré não pode sentar-se por falta de traseiro.
Pergunto: o que tem a ver uma coisa com outra?
Ademais, vejamos: " Embora vestidos iguais..." Vestidos iguais? " Iguais", adjetivo no plural? Aqui funciona como advérbio e não poderia ser deselegantemente pluralizado. Significa "igualmente". Vestidos de modo igual, da mesma maneira, de igual maneira. Distração do repórter, mas nada que ver com coesão e coerência, embora contribua para tumultuar o texto.
Como melhorar e tornar o texto coeso? assim:
" Embora vestidos da mesma maneira para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles divergiram em relação a políticas de ação afirmativa."
Ainda que com o texto acertado do ponto de vista de coesão textual, não se justifica relacionar, por meio do conectivo "embora", a vestimenta com ideias, porque os dois segmentos representam planos ou valores diferentes. Melhor teria sido citar a vestimenta de passagem, como informação claramente secundária, que nada tem a ver com o rumo do debate. Assim, sem a conjunção concessiva, agora com coerência:
" Vestidos da mesma maneira para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles divergiram em relação a políticas de ação afirmativa."
CONCLUSÃO: Ao produzir um texto, devemos ser objetivos e cuidadosos: usar palavras absolutamente adequadas ao contexto, com a certeza de que efetivar a coesão significa garantir a coerência textual, ou seja, o encadeamento adequado a um texto claro e convincente.
Quanto à coerência, é a unidade do texto. Othon M. Garcia diz que "a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo-se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante do parágrafo."
Em certos contextos, coerência pode ser sinônimo de coesão. Para ilustrar o que foi colocado, observemos um recorte de um texto jornalístico relativamente recente, em que um repórter registrou, num parágrafo, sua percepção sobre um confronto entre candidatos na última campanha eleitoral:
" Embora vestidos iguais para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles ( os candidatos) também apresentaram diferenças em relação a políticas de ação afirmativa."
Esse é o se pode chamar de período desconexo. A primeira oração de " Embora" até "vermelha", constitui uma concessão que não se coaduna com a afirmação contida em seguida de que "eles também apresentaram diferenças..." Ocorre que também é um reforço do verbo ligado a "diferenças"; e " embora" é conjunção adverbial concessiva que expressa ideia contrária.
Enfim, o redator escreveu algo com o mesmo sentido do seguinte enunciado:
Embora o maxixe seja ótimo alimento, também o jacaré não pode sentar-se por falta de traseiro.
Pergunto: o que tem a ver uma coisa com outra?
Ademais, vejamos: " Embora vestidos iguais..." Vestidos iguais? " Iguais", adjetivo no plural? Aqui funciona como advérbio e não poderia ser deselegantemente pluralizado. Significa "igualmente". Vestidos de modo igual, da mesma maneira, de igual maneira. Distração do repórter, mas nada que ver com coesão e coerência, embora contribua para tumultuar o texto.
Como melhorar e tornar o texto coeso? assim:
" Embora vestidos da mesma maneira para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles divergiram em relação a políticas de ação afirmativa."
Ainda que com o texto acertado do ponto de vista de coesão textual, não se justifica relacionar, por meio do conectivo "embora", a vestimenta com ideias, porque os dois segmentos representam planos ou valores diferentes. Melhor teria sido citar a vestimenta de passagem, como informação claramente secundária, que nada tem a ver com o rumo do debate. Assim, sem a conjunção concessiva, agora com coerência:
" Vestidos da mesma maneira para o evento, com terno escuro e gravata vermelha, eles divergiram em relação a políticas de ação afirmativa."
CONCLUSÃO: Ao produzir um texto, devemos ser objetivos e cuidadosos: usar palavras absolutamente adequadas ao contexto, com a certeza de que efetivar a coesão significa garantir a coerência textual, ou seja, o encadeamento adequado a um texto claro e convincente.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Para entender a notícia
A produção de um texto, independentemente do gênero discursivo, exige muitos cuidados. Para que se obtenha um bom resultado, é fundamental que os elementos coesivos ( preposições, conjunções, advérbios, certos pronomes, palavras denotativas) sejam bem utilizados, a fim de promoverem a coerência textual. Além disso, não se deve esquecer a observância às regras de concordância nominal e verbal , de regência e de crase. É melhor evitar palavras que sejam raras ou pouco usuais, principalmente, em se tratando de textos de cunho jornalístico.
Lembremos o verbo "vir", que tem a forma "vindo" tanto para o particípio quanto para o gerúndio, ocorrendo o mesmo com seus derivados : advir/advindo , convir/convindo, intervir/ intervindo, provir/ provindo e outros mais da família de "vir" que podem gerar certa dificuldade interpretativa do texto, já que a forma verbal de gerúndio sugere ação em processo, e a forma verbal de particípio, ação já concluída.
Exemplificando:
Foi amplamente divulgado, em diferentes mídias, o caso do italiano Cesare Battisti, condenado na Itália pela acusação de ter mandado matar quatro pessoas. Fugiu para o Brasil e criou problemas para o governo brasileiro, que o abrigou, considerando-o perseguido político. Ao longo das discussões provocadas pela decisão, surgiu a notícia de que Carla Bruni, a mulher do presidente francês Nicolas Sarkozy, teria pedido ao então presidente Lula que não extraditasse Battisti:
"(...) um grupo de apoiadores das vítimas do terrorismo na Itália acusou Bruni de ter intervindo a favor de Battisti (...)".
Além do particípio pouco usual do verbo " intervir" ( intervindo, que coincide com o gerúndio), o redator escorregou na regência, usando " a favor" em vez de " em favor", o que teria sido mais apropriado.
Quanto ao particípio, embora seja correto, o emprego de outro verbo mais comum, como "interferido", talvez tivesse deixado a notícia mais clara.
Ao elaborar um texto, é melhor não perder de vista o leitor. É ele que imprimirá o sentido do texto a partir das marcas estruturais deixadas pelo próprio texto.
Lembremos o verbo "vir", que tem a forma "vindo" tanto para o particípio quanto para o gerúndio, ocorrendo o mesmo com seus derivados : advir/advindo , convir/convindo, intervir/ intervindo, provir/ provindo e outros mais da família de "vir" que podem gerar certa dificuldade interpretativa do texto, já que a forma verbal de gerúndio sugere ação em processo, e a forma verbal de particípio, ação já concluída.
Exemplificando:
Foi amplamente divulgado, em diferentes mídias, o caso do italiano Cesare Battisti, condenado na Itália pela acusação de ter mandado matar quatro pessoas. Fugiu para o Brasil e criou problemas para o governo brasileiro, que o abrigou, considerando-o perseguido político. Ao longo das discussões provocadas pela decisão, surgiu a notícia de que Carla Bruni, a mulher do presidente francês Nicolas Sarkozy, teria pedido ao então presidente Lula que não extraditasse Battisti:
"(...) um grupo de apoiadores das vítimas do terrorismo na Itália acusou Bruni de ter intervindo a favor de Battisti (...)".
Além do particípio pouco usual do verbo " intervir" ( intervindo, que coincide com o gerúndio), o redator escorregou na regência, usando " a favor" em vez de " em favor", o que teria sido mais apropriado.
Quanto ao particípio, embora seja correto, o emprego de outro verbo mais comum, como "interferido", talvez tivesse deixado a notícia mais clara.
Ao elaborar um texto, é melhor não perder de vista o leitor. É ele que imprimirá o sentido do texto a partir das marcas estruturais deixadas pelo próprio texto.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Mulheres, textos e números
A revista Science publicou um estudo cujo resultado põe abaixo teorias sexistas de que as mulheres são inferiores aos homens nas ciências exatas. De acordo com a pesquisa, mulheres que estudam matemática e física tiveram um desempenho melhor nestas disciplinas quando precedidas por atividades de redação, um dado revelador de que escrever pode melhorar a autoestima das estudantes.
Dos 399 alunos (de ambos os sexos) que participaram da pesquisa, parte deles teve de escrever sobre valores pessoais antes de começar o curso de física propriamente dito. Já a outra parte não participou de nenhuma atividade, indo direto ao curso. As mulheres do grupo que escreveu se saíram melhor na prova de física do que as do outro grupo. Entre os homens não houve diferenças significativas.
Dos 399 alunos (de ambos os sexos) que participaram da pesquisa, parte deles teve de escrever sobre valores pessoais antes de começar o curso de física propriamente dito. Já a outra parte não participou de nenhuma atividade, indo direto ao curso. As mulheres do grupo que escreveu se saíram melhor na prova de física do que as do outro grupo. Entre os homens não houve diferenças significativas.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Tuitadas imortais
A Academia Brasileira de Letras recebeu, em seu Chá dos Acadêmicos, três usuários do microblog Twitter que tiveram seus microcontos premiados. Os vencedores, um do Rio e dois do interior paulista, foram contemplados com dicionários entregues por "imortais" como Nélida Piñon, Arnaldo Niskier e Cícero Sandroni.
A formalidade, porém, restringiu-se à premiação. Os microcontos vencedores, além de primarem pela concisão e informalidade típicas do microblog, marcam a abertura da ABL a uma linguagem "jovem", cuja vitrine seriam os textos veiculados por internautas em redes sociais. Participaram da competição cerca de 2.290 microcontos sobre os mais diferentes temas. Praticamente tudo era permitido, desde que não se ultrapassassem os 140 caracteres impostos pelo formato da ferramenta.
Eis os três microcontos vencedores do concurso promovido pela ABL:
1º lugar
" Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida."
Bibiana Silveira Da Pieve, Rio de Janeiro
2º lugar
" Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu."
Carla Ceres de Oliveira Capeleti, Piracicaba - S.Paulo
3º lugar
" Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho da parede da cozinha. Acertou na mosca."
Eryck G. S. de Magalhães, Guaratinguetá - S. Paulo
A iniciativa da Academia Brasileira de Letras de se abrir às novas tecnologias em favor da literatura brasileira mostra-se bastante positiva, já que procura aproximar a tradição acadêmica da sociedade. Acrescente-se a isso, a questão dos gêneros discursivos, que devem atender às diferentes esferas de circulação e, portanto, adaptar-se às situações contextuais e midiáticas, como nesse caso, a formatos textuais, até então, inimagináveis pelos "imortais".
A formalidade, porém, restringiu-se à premiação. Os microcontos vencedores, além de primarem pela concisão e informalidade típicas do microblog, marcam a abertura da ABL a uma linguagem "jovem", cuja vitrine seriam os textos veiculados por internautas em redes sociais. Participaram da competição cerca de 2.290 microcontos sobre os mais diferentes temas. Praticamente tudo era permitido, desde que não se ultrapassassem os 140 caracteres impostos pelo formato da ferramenta.
Eis os três microcontos vencedores do concurso promovido pela ABL:
1º lugar
" Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida."
Bibiana Silveira Da Pieve, Rio de Janeiro
2º lugar
" Joguei. Perdi outra vez! Joguei e perdi por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu."
Carla Ceres de Oliveira Capeleti, Piracicaba - S.Paulo
3º lugar
" Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho da parede da cozinha. Acertou na mosca."
Eryck G. S. de Magalhães, Guaratinguetá - S. Paulo
A iniciativa da Academia Brasileira de Letras de se abrir às novas tecnologias em favor da literatura brasileira mostra-se bastante positiva, já que procura aproximar a tradição acadêmica da sociedade. Acrescente-se a isso, a questão dos gêneros discursivos, que devem atender às diferentes esferas de circulação e, portanto, adaptar-se às situações contextuais e midiáticas, como nesse caso, a formatos textuais, até então, inimagináveis pelos "imortais".
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Aurélio no celular
Com o avanço da tecnologia, não há mais espaço para argumentos contra os dicionários compactos, muitas vezes preteridos por serem pouco abrangentes em relação às edições integrais. O lançamento da versão eletrônica do dicionário Aurélio para celulares rompe essa lógica ao dar conta dos 435 mil verbetes da edição completa, até então restritos a um calhamaço de páginas, que a partir de agora podem ser acessados em qualquer lugar do mundo sem a necessidade de se conectar à internet para a consulta.
Os 435 mil verbetes compreendem locuções, definições, classes gramaticais, conjugação completa e etimologia. O aplicativo, disponível na loja virtual da Apple, vem sendo bem avaliado pelos usuários, que têm demonstrado preferência pelo programa em vez das duas mil páginas da edição impressa.
Os 435 mil verbetes compreendem locuções, definições, classes gramaticais, conjugação completa e etimologia. O aplicativo, disponível na loja virtual da Apple, vem sendo bem avaliado pelos usuários, que têm demonstrado preferência pelo programa em vez das duas mil páginas da edição impressa.
sábado, 28 de agosto de 2010
Ficha limpa do idioma
Os tempos verbais podem transformar-se em armas perigosas. Explicando: com diferenças sutis entre si, os tempos verbais podem ser usados para alterar o sentido, muitas vezes, intencionalmente. É o caso que ocorreu, recentemente, no projeto de iniciativa popular que impedia a candidatura de políticos condenados pela Justiça, o Ficha Limpa, aprovado pelo Senado em 19 de maio e sancionado pelo presidente Lula em 7 de junho. Tudo ia bem quando, depois de aprovada a lei, uma emenda de última hora alterou um tempo verbal do projeto original.
O projeto original dizia que seriam inelegíveis os políticos que "tenham sido condenados" e os que "foram condenados" pela Justiça, isto é, qualquer pessoa condenada pela Justiça seria inelegível. No entanto, a Câmara dos Deputados, não satisfeita, atenuou o projeto, de forma que a interpretação passou a ser a de que "só os condenados por colegiado de juízes seriam inelegíveis".
O projeto original dizia que seriam inelegíveis os políticos que "tenham sido condenados" e os que "foram condenados" pela Justiça, isto é, qualquer pessoa condenada pela Justiça seria inelegível. No entanto, a Câmara dos Deputados, não satisfeita, atenuou o projeto, de forma que a interpretação passou a ser a de que "só os condenados por colegiado de juízes seriam inelegíveis".
Mesmo com essa mudança, segundo alguns políticos, ainda seria necessário alterar o texto para evitar equívocos de sentido. Dessa forma, para "uniformizar o texto", disse o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) criou emenda que alterou o tempo verbal para "os que forem condenados".
O que terá pretendido o inefável senador ao mudar o tempo "tenham sido" (pretérito perfeito do subjuntivo) por "forem" (futuro do subjuntivo)?
O que terá pretendido o inefável senador ao mudar o tempo "tenham sido" (pretérito perfeito do subjuntivo) por "forem" (futuro do subjuntivo)?
Sabemos que o subjuntivo de "que forem condenados" aponta hipótese de que algo venha ocorrer. Na prática, deixa políticos já condenados livres para se candidatarem.
Ao responder à Folha de S.Paulo se havia feito a emenda de redação para beneficiar o deputado Paulo Maluf, também do PP, condenado por colegiado de juízes, Dornelles garantiu que não. Explicou que só quis unificar os tempos verbais porque havia divergências no texto. Então, é lícito perguntar por que não os unificou no passado " foram" no lugar de " tenham sido"?
Não é o primeiro caso de mudança de português que, cosmética na superfície, transforma um texto legal; mas é o primeiro relevo eleitoral dado a um tempo verbal. Nesse caso específico, percebe-se que a troca de tempos verbais delineou implicações reveladoras do caráter do político brasileiro.
Não é o primeiro caso de mudança de português que, cosmética na superfície, transforma um texto legal; mas é o primeiro relevo eleitoral dado a um tempo verbal. Nesse caso específico, percebe-se que a troca de tempos verbais delineou implicações reveladoras do caráter do político brasileiro.
Muito oportuno o que disse Josué Machado relativamente a esse carnaval político: " Para que clarear o que vai tão bem na penumbra? "
Esse episódio alerta-nos para as sutilezas dos sentidos construídos pelos tempos verbais. Principalmente nesse ano eleitoral, todo cuidado é pouco. Numa disputa tão acirrada como a que se anuncia, a vigilância na linguagem pode revelar-se mais que justificada.
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Quem sou eu
- Mirian
- Mirian Rodrigues Braga é mestre e doutora em Língua Portuguesa pela PUC/SP. Especializou-se em analisar as obras de José Saramago. Em 1999, publicou A Concepção de Língua de Saramago: o confronto entre o dito e o escrito e também participou da coletânea José Saramago - uma homenagem, por ocasião da premiação do Nobel ao referido autor. Em 2001, publicou artigo na Revista SymposiuM da Universidade Católica de Pernambuco. Atuou como professora-assistente no Curso de Pós-Graduação lato sensu da PUC/SP. É professora de Língua Portuguesa e Redação no Ensino Médio e Curso Pré-Vestibular do Colégio Argumento.